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Novo Millennio Ineunte - Introdução

07/09/2009

Carta Apostólica de João Paulo II

 

JOÃO PAULO II - NO TERMO DO GRANDE JUBILEU DO ANO 2000

 

 1. No início do novo milênio quando se encerra o Grande Jubileu, em que celebramos os dois mil anos do nascimento de Jesus, e um novo percurso de estrada se abre para a Igreja, ressoam no nosso coração as palavras com que um dia Jesus, depois de ter falado às multidões a partir da barca de Simão, convidou o Apóstolo a « fazer-se ao largo » para a pesca: « Duc in altum » (Lc 5,4). Pedro e os primeiros companheiros confiaram na palavra de Cristo e lançaram as redes. « Assim fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixe » (Lc 5,6).

 

Duc in altum! Estas palavras ressoam hoje aos nossos ouvidos, convidando-nos a lembrar com gratidão o passado, a viver com paixão o presente, abrir-se com confiança ao futuro: « Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre » (Heb 13, 8).

 

Ao longo do ano jubilar, grande foi a alegria da Igreja, que se dedicou a contemplar o rosto do seu Esposo e Senhor. Ela tornou-se mais intensamente povo peregrino, guiado por Aquele que é « o grande Pastor das ovelhas » (Heb 13,20). O povo de Deus, com um dinamismo extraordinário que envolveu muitos dos seus membros, seja aqui em Roma, seja em Jerusalém e em cada uma das Igrejas locais, passou pela « Porta Santa » que é Cristo. A Ele, meta da história e único Salvador do mundo, a Igreja e o Espírito gritaram: « Maranatha — Vem, Senhor Jesus! » (cf. Ap 22,17.20; 1 Cor 16,22).

 

É impossível medir o sucesso de graça que, ao longo do ano, tocou as consciências. Mas certamente um « rio de água viva », o mesmo que jorra incessantemente « do trono de Deus e do Cordeiro » (Ap 22,1), inundou a Igreja. É a água do Espírito que sacia e renova (cf. Jo 4,14). É o amor misericordioso do Pai que uma vez mais nos foi manifestado e oferecido em Cristo. No termo deste ano, podemos repetir, com renovado júbilo, aquele antigo refrão de ação de graças: « Louvai o Senhor porque Ele é bom, porque é eterna a sua misericórdia » (Sal 118117,1).

 

2. Sinto, por isso, a necessidade de me dirigir a vós, irmãos muito amados, para partilhar convosco o cântico de louvor. A este ano santo 2000, tinha eu pensado como uma data importante, desde o princípio do meu pontificado. Tinha entrevisto esta celebração como um momento providencial em que, trinta e cinco anos depois do Concílio Ecumênico Vaticano II, a Igreja seria convidada a interrogar-se sobre a sua renovação para assumir com novo impulso a sua missão evangelizadora.

 

O Jubileu terá conseguido realizar este desígnio? O nosso empenho, com seus generosos esforços e inevitáveis fragilidades, Deus o conhece. Mas não podemos subtrair-nos ao dever de agradecer « as maravilhas » que Deus fez por nós. « Misericordias Domini in aeternum cantabo » (Sal 8988,2).

 

Ao mesmo tempo, tudo o que aconteceu sob os nossos olhos merece ser ponderado e de certo modo decifrado, para ouvir aquilo que, ao longo deste ano tão intenso, o Espírito disse à Igreja (cf. Ap 2,7.11.17 etc.).

 

3. Mas, sobretudo é nossa obrigação, amados irmãos e irmãs, lançar-nos para o futuro que nos espera. Nestes meses, olhamos frequentemente para o novo milênio que começa, vivendo o Jubileu não só como lembrança do passado, mas também como profecia do futuro. Agora é preciso guardar o tesouro da graça recebida, traduzindo-a em ardentes propósitos e diretrizes concretas de ação. A esta tarefa, desejo convidar todas as Igrejas locais. Em cada uma delas, reunida à volta do seu Bispo na escuta da Palavra, na união fraterna e na « fração do pão » (cf. Act 2,42), « está e opera a Igreja de Cristo una, santa, católica e apostólica ». É principalmente na realidade concreta de cada Igreja que o mistério do único povo de Deus assume aquela configuração particular que o torna aderente aos diversos contextos e culturas.

 

Este enraizamento da Igreja no tempo e no espaço reflete, em última análise, o movimento mesmo da encarnação. É hora, pois, de cada Igreja refletir sobre o que o Espírito disse ao povo de Deus neste especial ano de graça e também no arco mais amplo de tempo desde o Concílio Vaticano II até ao Grande Jubileu, medindo o seu fervor e ganhando novo impulso para os seus compromissos espirituais e pastorais. Com tal finalidade, desejo oferecer nesta Carta, no encerramento do ano jubilar, o contributo do meu ministério petrino, para que a Igreja resplandeça cada vez mais na variedade dos seus dons e na unidade do seu caminho.

 

 Salvai Almas

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